Na tarde do último sábado (19) foi realizado um simpósio na Igreja Matriz para apresentação e debate do Relatório Sobre a Saúde Pública de Chapadinha, elaborado pela comunidade. Verdadeiro diagnóstico da saúde local, o documento surgiu após pesquisas e debates em cada bairro, realizados em função da Campanha da Fraternidade 2012 - "Fraternidade e Saúde Pública".

Participaram do evento, além de representantes da igreja e da comunidade, a prefeita Danúbia Carneiro, a secretária de saúde, Dra. Coutinho, a presidente da Câmara Municipal, Márcia Gomes e o presidente do PT, Francisco Paiva. Os organizadores fizeram questão de frisar que a Pastoral da Saúde á uma exigência da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e, dentre outras funções, é responsável por fiscalizar e cuidar da saúde pública nos municípios.

Após o pároco Manuel Neves abrir os trabalhos, o Sr. Antonio de Sousa, mais conhecido como "Pirrita", apresentou o relatório, na qualidade de representante da paróquia. A prefeita e a secretária, por sinal, chegaram com 40 minutos de atraso, já no final da apresentação. O relatório, em suma, enumera os principais problemas, e também os mais "notados" pela população, tais como a ausência frequente de ambulâncias, medicamentos, equipamentos e materiais necessários ao atendimento dos pacientes, a inoperância da Câmara Municipal diante de tais evidências e, inclusive, a falta de autonomia da secretária do setor. Alguns casos foram relatados, como o de uma mãe que levou seu filho para vacinar e não obteve êxito, vez que havia vacina, mas faltava a seringa; ou o caso de outra mãe - este relatado pela própria, quase aos prantos, durante as exposições orais - cujo filho sofreu um acidente de motocicleta e, por falta de ambulância, teve que ser levado ao HAPA na viatura da PM, em cima de uma tábua.

O documento lista, também, algumas sugestões da comunidade para reverter esse quadro, tais como a descentralização da gestão do setor - que se encontraria "na mão" da prefeita - e a total transparência dos gastos relacionados à Saúde, com a publicação das respectivas contas na internet, conforme preconiza a Lei Complementar 131/2009 (Lei da Transparência).

Francisco Paiva, presidente do PT, iniciou as exposições "da mesa" agradecendo as equipes que participaram dos trabalhos. Ele disse que o Conselho Municipal de Saúde teria constatado, também, inúmeras irregularidades em licitações, aquisições, aluguéis e pagamentos, tais como os R$ 35 mil pagos à secretária Coutinho. Dividindo-se o total recebido em 2011 pelo número de meses, chega-se ao montante de quase R$ 2 milhões/mês, valor totalmente incompatível com a precariedade dos atendimentos prestados em nossos hospitais - frisou Paiva. A falta de autonomia da secretária Coutinho também teria sido constatada pelo CMS.


A segunda a se pronunciar foi a própria. Dra. Coutinho disse que estava feliz pelo trabalho da paróquia e, principalmente, pelo número de pessoas no evento. Segundo ela, o relatório estaria "perfeito" e iria ajudá-la em seu trabalho. Coutinho, como de praxe, disse que o problema na saúde pública era nacional e que a prefeitura estaria trabalhando para melhorar o quadro em Chapadinha. O número ainda insuficiente de unidades básicas de saúde e a perda, em 2006, de R$ 450 mil em receita, seriam causas do aumento dos problemas. Ela disse, também, que a "plena" receberia apenas "R$ 1 milhão", valor insuficiente para quem cuida da Saúde de 19 (dezenove) municípios.

Com exceção das autoridades, o público vaiou Dra. Coutinho ao final de seu pronunciamento, eis que foi repreendido pela organização, mantendo-se respeitoso até o fim do evento.

A terceira a falar foi Márcia Gomes, presidente da Câmara. Ela disse que o relatório elaborado pela comunidade é verdadeiro mas que os vereadores não seriam inoperantes, como relatado, uma vez que todos cobrariam do executivo melhorias no setor, inclusive os da base governista. Márcia também citou a perda de R$ 450 mil em receita como possível causa dos problemas e fez questão de aclamar-se "representante do povo" em razão dos mil e poucos votos que a elegeram. Em suma, o restante de seu discurso foi eivado de pessoalidade, onde a negação da "inoperância da Câmara" foi o tema.

A prefeita Danúbia Carneiro, por sua vez, disse que o trabalho desenvolvido pela Paróquia de Chapadinha estava sendo realizado em todos os municípios e serviria para ajudar a prefeitura a cuidar da Saúde. Ela justificou seu atraso em razão de sua agenda cheia, denotando pressa em razão de outro compromisso marcado para dali a pouco, razão pela qual não poderia ficar até o fim do evento. A exemplo de suas "colegas", Danúbia elogiou o relatório, mas disse não concordar com todo o seu teor. Segundo ela, parte desses "R$ 1 milhão e meio" recebidos pela Saúde sequer passavam por "sua mão" e citou, como exemplo, os cerca de R$ 200 mil destinados ao pagamento dos Agentes de Saúde.

Em razão da aparente pressa da prefeita, a organização do evento adiantou as perguntas do público direcionadas a ela, o que, de fato, terminou por adiantar todas as demais - escritas e orais - fazendo com que o simpósio terminasse antes do esperado.


Sobre a insatisfação dos moradores do Campo Velho com a construção de um posto de saúde em um canto da praça daquele bairro, Danúbia disse que não tinha conhecimento daquela reclamação, mas, desde que ficou ciente, determinou que a unidade de saúde fosse construída no centro da praça, conforme sugestão dos moradores.

Sobre as pessoas que pagaram por consultas 'de vista' inadequadas, realizadas por uma ONG investigada pela polícia, em parceria com a prefeitura, Danúbia relatou a Secretaria de Ação Social "só queria ajudar" e que o pessoal da ONG estaria nesta terça (22) em Chapadinha para, juntos, encontrarem uma solução para o impasse.

Sobre o dinheiro não estar dando sequer para suprir os hospitais com itens básicos, ela disse que, por conta disso, já chegou a "brigar" - de "bater na mesa" - com o secretário estadual de saúde, Ricardo Murad. Nesse momento, Danúbia sugeriu um cálculo inusitado ao público presente na Matriz: a divisão do valor mensal recebido pelo número - total - de habitantes dos municípios atendidos pela Saúde local. Segundo ela, a "prefeita de Chapadinha" manda pacientes de toda a região para São Luís, enquanto os prefeitos das cidades vizinhas, além de se furtarem dessa obrigação, não mantém a saúde em seus municípios como deveriam. Uma prova seria o hospital de Afonso Cunha, que se encontraria fechado.

Usando da palavra, o petista Chico da Cohab contestou a maioria dos argumentos de Danúbia Carneiro, inclusive a falácia da divisão das verbas pelo número de habitantes dos municípios, uma vez que ninguém adoecia ao mesmo tempo. O Sr. Eduardo Luís da Silva criticou a postura de Danúbia, Coutinho e Márcia, vez que elas teriam sido convidadas para discutir as propostas e não para ficar "se defendendo". Segundo ele, a prefeita deveria ter se comprometido, por exemplo, em descentralizar a saúde "de suas mãos", como propõe o relatório.

Alheia aos anseios do público, a vereadora Márcia voltou a defender a Câmara sem discutir nenhuma das soluções propostas. Coutinho, por sua vez, reclamou que, desde o início do atual mandato, tem sido muito mal interpretada.


Padre Neves fechou o evento iniciando por dizer que a Igreja Católica não é nem situação, nem oposição - mas também não é cega. Dirigindo-se à prefeita, ele disse que, se faltava dinheiro para suprir os hospitais com itens básicos, era só ela complementar com, por exemplo, o R$ 1 milhão e meio gasto no carnaval 2012. Nesse momento, Danúbia gargalhou e bateu palmas, como se o padre tivesse contado uma anedota.

Neves, no entanto, continuou, dizendo não entender como pode faltar dinheiro se tem gente recebendo salário de R$ 35 mil. Segundo ele, quem fica "se desculpando" pela atual situação da saúde é irresponsável. E, enquanto o sorriso de Danúbia ia se apagando, o padre dizia que não adiantava ela dizer que estava certa, porque não estava.

Por fim, Neves reiterou que, assim como foram entregues cópias do relatório às representantes da prefeitura e da câmara, outra seria enviada à Secretaria Estadual de Saúde; e que aquele simpósio era apenas o início da luta da pastoral pela melhoria da saúde pública no município.

Danúbia deve ter perdido seu outro compromisso inadiável, uma vez que, ao final do evento, permaneceu no local, dando entrevistas.

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