08 DE MARÇO - QUEM É O SEXO FRÁGIL?
Anaximandro Cavalcanti

Nos primórdios da história, lá nos tempos das cavernas, quem cuidava da família era a mulher, ao homem cabia a caça e a segurança do clã; quem detinha o poder da criação era a mulher, ela gerava vida em um processo divino, e eles a invejavam por isso; enquanto a mulher criava (gerando um filho), o homem destruía – guerreando, matando inimigos. Fazia isso para se impor frente ao poder mágico da mulher de engravidar.

Nos séculos seguintes o homem procurou inverter essa situação. A mulher sempre foi vista como um ser divino, e foi partindo do religioso que houve uma mudança em seu papel.

O mito babilônico da criação começa com a existência de uma deusa-mãe – Tiamate – que governa o universo. Seus filhos, rebelam-se. Como novo líder elegem Marduque, que além do poder de criar (feminino) tem o poder caracteristicamente masculino de destruir. Esse novo deus primeiro destrói, depois recria – mas o faz com sua palavra e não como a mulher, com o seu ventre.

A produtividade natural é substituída pela mágica, a mesma do mito da criação bíblico, onde a criação começa com a mágica palavra de Deus. Neste mito, contrariamente à realidade, o homem não nasce da mulher e sim a mulher é feita do homem. No mito bíblico é a mulher que é enganada pelo diabo e leva o homem ao pecado, com isso são expulsos do paraíso e, na maldição de Deus, temos novamente uma tentativa de autoafirmação masculina. A função criadora da mulher é reconhecida, mas terá de ser exercida em sofrimento e dor por causa de seu pecado, pecado este cometido contra um deus masculino. Ao homem destina-se o trabalho, ou seja, a produção, e assim voltamos ao inicio, ao tempo das cavernas, onde o homem era o provedor. A diferença é que agora ele está em uma posição mais confortável, já que o ato de dar a luz a um filho agora traz sempre a conotação e a lembrança do pecado, isso tudo para lembrar a ela sua posição de inferioridade junto ao homem.

Hoje vivemos em uma cultura altamente consumidora onde a principal ênfase recai sobre a produtividade natural e sendo o homem estéril, em termos puramente naturalistas, é natural que o homem se sinta inferior à mulher e, mesmo após séculos se valendo de uma ideia teológica de superioridade sua posição, ainda é vulnerável. Antes pelo fato de não ser capaz de gerar outra vida, hoje pelo fato de estar profundamente imbuído de provar constantemente a toda sociedade – e principalmente às mulheres – que corresponde a qualquer expectativa que se mantenha em relação a ele. O que o homem procura é prestígio e valor aos olhos da mulher, e essa busca lança alguma luz sobre a qualidade específica da vaidade do homem. A característica essencial da vaidade masculina é o exibicionismo, a demonstração do bom "executor" que ele é. O homem anseia por afirmar que não tem medo de falhar. Sua vaidade parece colorir toda a sua atividade.

Outro resultado da precária posição do homem em relação à mulher é seu medo do ridículo feminino, é o ódio potencial que experimenta por ela. Esse ódio contribui para um anseio que tem também uma função defensiva: dominar a mulher, ter poder sobre ela, fazê-la sentir-se fraca e inferior. O poder sobre uma pessoa depende de fatores mantidos com tal segurança que jamais possa surgir uma dúvida sobre a capacidade ou a competência. Incidentalmente, a promessa de poder sobre a mulher é o conforto que o mito bíblico, de tendências patriarcais, oferece ao homem, ainda quando Deus o amaldiçoa.

Se a principal arma do homem contra a mulher é seu poder físico e social sobre ela, então a principal arma da mulher é a possibilidade de ridicularizar o homem. A hostilidade específica do homem é sobrepor-se pela força física, pela força política ou econômica; a da mulher é solapar, pelo ridículo e pelo desprezo.


Anaximandro Silva Cavalcanti
Psicólogo CRP11/06725




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