Dirigir mal é uma coisa, dirigir errado é outra!


Todo trânsito supõe deslocamento de pessoas e veículos e todo deslocamento se realiza através de "comportamentos". Quando falamos de trânsito, as pessoas logo pensam em carros e motos, excluindo os pedestres, como se estes não fizessem parte do trânsito. Todo mundo na sociedade moderna participa do trânsito, os bebês empurrados nos carrinhos, as crianças que brincam com velocípedes na praça, adolecentes com skates, patinetes ou bicicletas, além dos idosos na faixa de pedestres com sua dificuldade de enxergar e reagir.

Além de todos esses níveis de idade com suas características específicas de comportamento, há os diversos tipos de veículos conduzidos. Há o motorista domingueiro, o que passou ontem pelo exame de habilitação ou o outro que comprou sua CNH. Ao lado deles há o motorista superexperiente, com mais de 30 anos de direção, e outro com mais tempo ainda, porém já idoso e com movimentos, audição e equilibrio comprometidos.

Existe ainda uma infinidade de tipos de personalidades: o apressadinho, o orgulhoso, o agressivo, o indiferente, o zombador, o nervoso, etc. Essas nuanças deixam o trânsito um ambiente fértil para os mais diversos surtos de comportamento agressivo. Volta e meia somos surpreendidos por um veículo cruzando repentinamente à nossa frente sem sinalizar, e o mais interessante é que boa parte deles são modelos caros, supostamente conduzidos por pessoas que tiveram acesso à cultura e educação.


Isso tudo gera uma descarga de adrenalina, a cada cortada, a cada freiada, a cada semáforo, a cada buraco – e em Chapadinha são vários. Essa descarga de adrenalina ocorrendo com frequência e por períodos prolongados gera um stress que torna-se devastador. *Cada batida do coração com a pressão sanguínea acima do normal cobra um preço das artérias. A mucosa do intestino fica vulnerável ao aparecimento de úlceras. A inundação de hormônios causa mau-humor, ansiedade, irritabilidade. Um deles, o cortisol, permanece muito tempo em circulação e se transforma numa toxina que mata neurônios causando lapsos de memória.

Trancado em seu carro, impotente a esses fatos, a pessoa pouco a pouco vai perdendo o controle e explode em atos de agressividade, que podem se ressumir a passar pelo sinal fechado, não dar passagem a um, trancar outro e, em situações mais extremas, atropelar alguém.

Para muitos o carro deixa de ser apenas um meio de transporte: segundo a psicanálise, o homem está profundamente imbuído do anseio de provar constantemente à mulher que ama, a todas as outras mulheres e a todos os outros homens, qualquer expectativa que mantenham em relação a ele. Se ele fracassa, tende a provar que é melhor. Tenta provar isso adquirindo "símbolos" de status: uma bela casa ou um sedam de luxo. "Quem dirige fez por merecer." O homem usa bens para compensar algo que lhe falta, geralmente um bem material que invoca uma imagem de poder e status, e nenhum outro passa uma imagem de poder e sucesso como um carro. Temos na sociedade alguns adágios que comprovam isso: "O brasileiro é apaixonado por carros" ou "Um Corolla abre portas".

Uma pessoa que vive um insucesso, por exemplo, na vida sexual, vai tentar compensar essa frustração comprando um carro 3.0 de 238 CV, que passa a ser um prolongamento de seu corpo, da mesma forma que uma pessoa franzina poderá comprar uma pick-up. O que está relacionado a estes carros nos comerciais? Robustez, potência, desempenho e força. No fundo essas pessoas estão dizendo para os outros que são isso também.


Anaximandro Silva Cavalcanti
Psicólogo
CRP11/06725


*Reinier J. A. Rozestraten - A Psicologia do Trânsito
(Email recebido em 08/12/11)



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