Por Anaximandro Silva Cavalcanti (foto):

Oração: ela tem uma dupla função. Primeiro, do ponto de vista da religião, a oração é uma tentativa de conversa com o sobrenatural. É onde a religião está em fronteira com o misticismo, porque você espera ser ouvido por alguma coisa que não está em seu ambiente natural, portanto esta é a fronteira entre o místico e o religioso.

A outra parte é seu sentido antropológico. Quando você está fazendo uma oração, está fazendo alguma coisa que aprendeu na infância, então está voltando para a sua casa, se reconhecendo no seu local de origem, se fortalecendo ao beber das palavras do seu pai, sua mãe, seu tio, avó... Isto é uma forma de fortalecimento. A oração, independentemente de ser uma questão religiosa, é também uma prática social antropológica que te fortalece, é a "volta às origens" para recuperar as forças e poder caminhar. Na volta à casa do avô, você está querendo recuperar as forças que lhe deram na infância, quando tudo podia.

As pessoas que não aprendem a orar quando crianças tem uma autoestima muito baixa. A oração melhora muito a autoestima por conta da relação que você teve com alguém que era seu pai, sua mãe, alguém que era do âmbito do amor e que lhe ensinou a orar por que gostava de você. Alguma pessoa que confiou em você, que fez você crescer, que fez você se sentir gente, um apoio positivo que você teve. Então quando você vai orar não é apenas uma relação místico-religiosa, é também uma relação antropológica de fortalecimento.

Oração em família

A fé é exatamente aquilo o que você acredita e não pede razões. Nós fazemos isso todos os dias, fazemos com nossos filhos, mulher, esposo... Nós temos fé em algumas pessoas, algumas pessoas tem fé em políticos.

Nós temos fé em um monte de coisas. Nos comportamos irracionalmente todos os dias e isso não faz com que sejamos mais ou menos racionais, porque isso é compatível - o inverso é que é imcompatível. Sem a fé nossa vida começaria a ficar completamente desestruturada, pois iríamos querer porquês a toda hora, e porquês a toda hora não funcionam. A maior parte da nossa vida funciona na base de crenças não justificadas, não só porque não tenham respostas, mas porque não queremos a resposta. Não queremos investigar aquilo; aquilo faz parte de uma crença com a qual temos que conviver, por fé, porque só assim ela funciona. Fora disso, ela invibiliziaria sua vida. Fora disso, nos tornaríamos pessoas incapazes de dar um paso no cotidiano.

Entre os importantes ganhos adaptativos da fé, menciono a potencialização da vontade e o enfrentamento de dificuldades severas por meio da confiança. A falta de confiança e esperança, por outro lado, pode favorecer o esmorecimento em face ao trauma. Pargament (1997) sugeriu que o uso da religiosidade e espiritualidade para o enfrentamento do trauma tem algo especial a oferecer: pode, de maneira única, capacitar os indivíduos a responder a situações em que tenham que se deparar com os limites do poder e do controle humanos no confronto com a vulnerabilidade e a finitude. Além disso, crenças e práticas religiosas podem reduzir a sensação de perda do controle e de desamparo; podem fornecer uma estrutura cognitiva capaz de atenuar o sofrimento e ainda fortalecer o indivíduo à reconstrução de sua vida.


Anaximandro Silva Cavalcanti
Psicólogo
CRP11/06725




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